Esperteza ou seria inocência?!

O Banco funcionava através desse site aqui
Sempre acreditei que "investimentos a longo prazo" seriam aqueles cujo o retorno poderia até demorar um pouco, mas que ainda assim poderíamos usufruir...em vida! Mas não é que existem outros tipos de investimentos a l.p., do tipo literal a perder de vista. Um amigo me disse, vi um artigo hoje na Folha de SP e lembrei de você. Nooossa quanta nobreza, pensar em mim enquanto lê a Folha.Daí pergunto, qual a matéria. Ele: - foi criado na Espanha o Banco da Reencarnação. Eu: - mas como assim?!( Morrendo de rir).
Não dá pra acreditar no nível de "inocência"e "cara-de-pau" do ser humano!
Pasmem. Esse Banco existe, pior, pessoas já se cadastraram, inclusive já fizeram seus investimento. E não se acanhe, eles recebem qualquer tipo de pagamento: jóias, bens, dinheiro...desde que sejam verdadeiros.
O mais interessante é que o Banco de fato se preocupa com a vida futura de seus investidores. Afinal, porque não deixar uma reserva pra próxima vida?! Vai que você nasce pobre, terá de trabalhar tudo de nova pra reconstruir um patrimônio. Isso não é justo, não mesmo. POr que ser tão rico nessa vida e ter de deixar toda a herança pra família, para uma instutuição de caridade?! Tem gente que deixa pra Igreja e para os cachorrinhos de estimação. Por que não ser, só mais uma vez egoísta, e deixar pra próxima vida?! Porque com toda a certeza do mundo, até lá essa grana já rendeu tanto que talvez na outra encarnaçao, não nessa próxima (essa antes do investimento), na oooutra mesmo ainda haja dinheiro para se gastar... Pensando bem, até que seria uma excelente idéia: ser pobre nessa vida e ser rica em todas as outras! P.s. isso pra quem é pobre nessa vida, porque pra quem é rico nessa, será bilionário nas próximas. Humnn , genial! Quem topa?


Para os interessados na matéria, não no Banco(que se intitula banco, mas de fato não é ), aqui vai o site :  http://www1.folha.uol.com.br/mercado/773268-banco-da-reencarnacao-desafia-autoridades-ao-tentar-receber-depositos.shtml.
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Memória Fotográfica X Autismo

Quem pode abrir a boca de dizer que tem uma memória fotográfica?! Alguns até se arriscam, mas são raros os que possuem esse dom. No dia a dia, no calor da rotina os pequenos detalhes ficam a mercê do interesse factual. De fato, nos acostumamos tanto com os rostos, lugares, pessoas, gostos e cheiros que mal percebemos as nuances daquilo que esta bem na nossa frente.
Percebemos claramente isso quando visitamos a cidade de algum amigo ou quando alguém nos apresenta outra pessoa, investimos nesse momento um olhar mais curioso, tudo é novidade e passível de verificação. Queremos ver tudo nos mínimos detalhes, desde que esse novo "objeto visual" nos instigue de alguma forma.
Mas na verdade, o que quero falar é sobre Stephen Wiltshire, um inglês autista, que possui uma das maiores e melhores memória fotográfica de todos os tempos. Nascido em Londres, aos 10 anos começou a desenha os pontos turísticos de sua cidade. O que sempre impressionou nos seus desenhos foi a perfeição dos detalhes tirados apenas de sua memória. Minúcias que passam despercebidos até mesmo pelos olhos de um mero curioso. Ele consegue identificar, numa paisagem de NY quantas janelas cada prédio desenhado possui ou precisar quantas colunas o Panteão (ROMA) possui. Wilshire anda pelo Mundo com sua visão e memória incríveis, criando os desenhos mais impressionantes de cada lugar que passa.
Wiltshire foi alvo de diversos documentários, e possui alguns livros publicados como: Desenhos (1987), Cidades (1989), Cidades flutuantes (1991), e Dream -americano (1993).
Vale muito conhecer sua história e seu trabalho.
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Felicidade Clandestina


Reinicio aqui publicando meu Conto Predileto...espero que gostem!



Felicidade Clandestina

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.
Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.
Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.
Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.
Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.
Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.
No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.
Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.
E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.
Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.
Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!
E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser. ”Entendem? Valia mais do que me dar o livro: pelo tempo que eu quisesse ” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.
Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.
Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.
Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Clarice Lispector
Felicidade clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
Extraído do Portal da Faculdade Sumaré
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